Do achamento da Madeira ao seu ouro branco-O Açúcar
Em 1339 as ilhas do arquipélago da Madeira aparecem descritas na carta de Angelino Dulcret. Desde 1350 que cartas marítimas e portulanos assinalam as ilhas do arquipélago da Madeira como na carta Pizzigani de 1367. A representação cartográfica da Madeira aparece-nos no Atlas Mediceo entre 1351-1357, e na carta de Abraão Cresques de 1375.
O descobrimento oficial do Porto Santo dar-se-á em 1418 e da Madeira em 1419.
O Infante D. Henrique, Senhor das Ilhas, faz carta de doação das capitanias do Funchal a João Gonçalves Zarco, a de Machico a Tristão Vaz e a de Porto Santo a Bartolomeu Perestrelo. Estas servirão de modelo administrativo a outros territórios na expansão portuguesa.
Após a introdução dos cereais, o produto de maior interesse comercial surge com a plantação da cana do açúcar, cuja iniciativa se liga ao Infante D. Henrique, que incentivou ao mesmo tempo a criação dos primeiros engenhos, como o de Diogo Teive em 1452.
Em 1494, a grande maioria do açúcar produzido provinha sobretudo do Funchal, Câmara de Lobos, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta. A sua fase ascendente deve situar-se entre 1450 e 1506, apesar de alguns reveses.
A Madeira trouxe à Europa o consumo generalizado do açúcar, disseminando depois a sua tecnologia, sobretudo em São Tomé, no Brasil e nas Antilhas.
Antuérpia torna-se a placa giratória do açúcar madeirense para o norte da Europa, justificando a presença de obras de arte, encomendadas directamente à Flandres desde finais do século XV e por parte do século XVI. Muitos comerciantes italianos frequentavam a Ilha da Madeira, controlando uma parte significativa do comércio com o mediterrâneo.
Na Madeira experimentou-se Portugal no Atlântico e as suas colecções artísticas são testemunho do interesse e proximidade da coroa, até pelas ofertas régias à catedral do Funchal, chegadas em 1527.
Da crise Açucareira ao influxo do Vinho
A crise do açúcar ficou a dever-se à concorrência de outros centros produtores, como o Brasil, mas também a problemas de esgotamento dos solos, falta de mão-de- obra e doenças dos canaviais.
No final do século XVI inicia-se a importação de açúcar do Brasil para alimentar a nossa indústria de doçaria. Com as madeiras de que eram feitas as caixas para transporte do açúcar brasileiro, os marceneiros locais criaram os móveis ditos caixa de açúcar. Assistiu-se a uma maior importação de objectos vindos da metrópole, e multiplicaram-se os contactos com os mundos da expansão ibérica nos Orientes, pelas rotas do Cabo e de Acapulco.
O último quartel do século XVI, revelou a introdução cada vez mais frequente do vinho. Em 1571, Jorge Vaz, de Câmara de Lobos, declarava em testamento: um chão que sempre andou de canas e agora mando que se ponha de malvasia para dar mais proveito.
A Inglaterra teve um lugar fundamental na divulgação e comércio do vinho Madeira e a sua presença está documentada desde o século XV.
William Shakespeare transmite-nos a presença quotidiana do vinho Madeira em Inglaterra. Na sua peça Henrique IV, coloca John Falstaff a vender a sua alma por um copo de Madeira e uma perna de capão.
A política mercantilista de Inglaterra, determinava o controle dos navios de pavilhão inglês no seu vasto império. Estabeleceu, entre poucas excepções, desde 1663, a importação de vinho da Madeira, por via directa. Estes contactos privilegiados incrementaram-se com a assinatura em 1703, do Tratado de Methuen.
Desde 1665 existe notícia da venda na América de Vinho Madeira, em Boston e depois Nova Iorque. A proclamação da independência dos Estados Unidos, em 1776, foi brindada com vinho Madeira.
Os Primeiros Turistas
Com o início do século XIX assistiu-se a uma concentração progressiva dos principais destinos do vinho, novamente na europa continental e na Inglaterra, abrandando a cota de exportação para as colónias. Com as guerras napoleónicas o domínio, por parte de Inglaterra, torna-se ainda mais presente com a ocupação da Madeira.
A crise na produção inicia-se na década de vinte. Logo na segunda metade do século, graves doenças como o oídeo, em 1852 e em 1872, um primeiro grande ataque de filoxera, faz decrescer a exportação.
A partir da segunda metade do século XVIII desenvolve-se, muito pela forte presença dos ingleses, uma progressiva revelação da Ilha como destino de turismo terapêutico. O Funchal foi considerado, numa reputação passada entre a aristocracia europeia, como estância fundamental ao alívio dos males da tísica, pela benignidade do clima e beleza da paisagem.
Os nossos primeiros turistas foram os doentes, mas também os aventureiros do Grand Tour europeu. Procuravam a natureza poderosa e realizaram muitos deles, apontamentos de viagens, desenhos, alguns depois publicados em forma de álbuns de gravuras. Datam do último quartel do século XIX as muitas fotografias que se foram fazendo dos viajantes e reportagens sobre os seus principais acontecimentos históricos.
Os Caminhos da Modernidade
O início do século XX é aqui evocado pela obra de dois artistas plásticos, nascidos na Madeira, os irmãos Henrique e Francisco Franco, e que se irão integrar no contexto do nascimento do modernismo em Portugal. Estudando em Lisboa e depois em Paris, serão bem o exemplo do apelo pela terra natal, como elemento fundador do imaginário criativo, sem no entanto deixarem de manter a curiosidade pela novidade, que representou a possibilidade de outras vivências no continente e em Paris.
Proximidade e distância, abertura ao mundo e certeza no seu vínculo mais profundo, a ideia de autenticidade.
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